quarta-feira, 12 de junho de 2013


As dez virgens – Parte III
Robert Murray M'Cheyne


"Mas à meia-noite ouviu-se um clamor: Aí vem o esposo, saí-lhe ao encontro. Então todas aquelas virgens se levantaram, e prepararam as suas lâmpadas. E as loucas disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam. Mas as prudentes responderam, dizendo: Não seja caso que nos falte a nós e a vós, ide antes aos que o vendem, e comprai-o para vós." - Mateus 25:6-9

Há algo doce naquele clamor da meia-noite: “Aí vem o esposo”. Será um dia terrível até para os filhos de Deus.
Primeiro, todas as mudanças repentinas são espantosas. Muitas pessoas foram mortas pela notícia inesperada de algo alegre. Quão terrível e alegre, então, será aquele clamor, quando ouvirmos que todas armadilhas e preocupações se passaram, que o pecado não reinará mais no mundo!
Segundo, o destino de nossos amigos impiedosos será espantoso. Todos nós temos amigos ímpios, por quem oramos para que se convertam. Quando aquele clamor vier, será o lamento de suas almas; apesar disso, será um dia de alegria. Em Mateus 24:32, esse dia é comparado ao verão. Será o verão da alma – o inverno será passado. “Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e cura trará nas suas asas” (Ml.4:2). “E será como a luz da manhã, quando sai o sol, da manhã sem nuvens, quando pelo seu resplendor e pela chuva a erva brota da terra.” (2Sm.23:4). “Ele descerá como chuva sobre a erva ceifada, como os chuveiros que umedecem a terra” (Sl72:6).

Mas, acima de tudo, o clamor “Aí vem o esposo” reavivará os corações abatidos daqueles a quem Ele escolheu. Isto nos lembrará do tempo em que Ele mesmo nos escolheu para sermos Seus – o tempo do amor, quando Ele nos cortejou e disse: “Vocês serão meus, e não te prostituirás” (Os.3:3). Ele que nos amou e morreu por nós, e prometeu que retornaria e nos receberia para si mesmo - “Aí vem o esposo”. Ah! Considerem, amados amigos, se será um tempo de alegria ou de gemido para vocês. Pecador descuidado, o que será de ti?

I. A descoberta: “nossas lâmpadas se apagaram”

Um pavio seco brilha por um instante. Da mesma maneita, os hipócritas frequentemente professam a fé até o fim; às vezes, é muito vistoso e evidente. Muitas coisas podem despertar o hipócrita:

1. Sua situação é descrita nos sermões

Frequentemente o ministro é guiado por Deus para falar exatamente sobre a condição desses. Frequentemente a Palavra chega muito perto de sua consciência. Muitas vezes, certamente, eles levam a Palavra para casa. Mas, de uma forma ou outra, eles são derrotados.

2. Veêm a conversão de outros
Os hipócritas, com frequência, veêm outros, a seu lado, passarem por uma transformação salvadora. Eles os veêm convictos do pecado, deitados no pó, trazidos a Jesus, cheios de alegria, vivendo uma nova vida, vencendo o mundo. Isso pode abrir seus olhos para que vejam que a mudança que professam ter é falsa e vazia.

3. A morte dos outros

Ver outros que se foram, deve ser algo solene para os hipócritas. A morte tira toda máscara, pois chama a alma. Convicções fingidas, graça fingida e falsas palavras de piedade, agora não serão de nenhum proveito. Quando hipócritas veêm outros cortados da terra, sempre penso que certamente se converterão,mesmo assim, isso não acontece.

4. Eles vivem pela aparência, e não querem se desfazer dela

Eles fizeram uma profissão de fé, e não gostam de voltar atrás. Os pregadores têm estado contentes e satisfeitos com eles, e pessoas piedosas os estimam, e eles não querem desistir de tudo. Assim, Judas foi estimado como verdadeiro discípulo por um longo tempo, e manteve sua profissão de fé até o fim.

5. Frequentemente enganam a si mesmos

Eles têm um conhecimento, e confudem isso com graça. Têm forma de piedade, oram secretamente e com a família, mas enganam a si mesmos e aos outros. Suas lâmpadas se apagarão na volta de Cristo. Nenhum brilho, nenhuma centelha. Qual a razão?

6. Não há graça em seu interior

Suas lâmpadas se apagarão porque não terão óleo. Eles queimarão por um tempo, como acontece com o pavio seco, com grande brilho; mas logo a chama diminui, e se apaga por falta de óleo. Este é o caso dos hipócritas. Eles não têm uma fonte de óleo gracioso em seus corações. O Espírito de Deus com frequência vem sobre eles, mas não habita neles. Assim foi com Balaão. Seus olhos foram abertos, viu muito da alegria do povo de Deus, desejava morrer a morte de um justo (Nm.23:10); mas não tinha o óleo em sua lâmpada, e por isso, sua lâmpada se apagou. Assim foi com Saul. “Deus mudou seu coração em outro” e “o Espírito de Deus se apoderou dele” (1Sm.10:9-10); mas ele não tinha óleo em sua lâmpada, não tinha a habitação graciosa do Espírito. Isso fez com que se desviasse de Jesus, e sua lâmpada se apagou.

7. Eles terão de comparecer perante Cristo.

É muito fácil parecer cristão diante dos homens. “[...] pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o SENHOR olha para o coração.” (1Sm.16:7). Enquanto os hipócritas tiverem de comparecer apenas diante dos homens, eles poderão manter as aparências. Eles podem falar, ler e orar como se fossem filhos de Deus; mas quando o clamor vier “Aí vem o esposo” (Mt.25:6), eles saberão que deverão comparecer diante de Cristo, que sonda os corações. Quando Jessé trouxe seus sete filhos, Samuel olhou para Eliabe e disse: “Certamente está perante o SENHOR o seu ungido”, mas Deus disse: “Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o SENHOR não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o SENHOR olha para o coração.” (1Sm.16:6-7). Ah, irmãos! Há muitos de vocês que, agora, podem vir audaciosamente perante o homem, embora vocês mesmos saibam que são ímpios, que nunca nasceram de novo e vivem em pecado. Vocês podem sentar perante algo sagrado sem medo ou vergonha, mas quando Cristo vier, sua lâmpada se apagará, você não será capaz de suportar o brilho de Seu olho santo. Oh! Ore por um interesse em Cristo agora, para que você esteja diante do Filho do Homem em sua volta.


II. O pedido do aflito

Naquele dia, hipócritas pedirão aos piedosos por misericórdia: “Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam.” (Mt.25:8).

1. Os hipócritas então verão a diferença entre eles e os piedosos.

Suas lâmpadas se apagarão. Mas a lâmpada dos verdadeiros piedosos continuarão queimando com brilho e clareza. No presente, os hipócritas pensam que são tão bons quanto os outros. Eles pensam que não existe diferença entre eles e o povo de Deus. Porém, naquele dia ficarão convictos de que existe um grande abismo fixado entre si.

2. Eles verão que felicidade é ter azeite em suas lâmpadas.

No presente, muitos de vocês não veêm que precisam da graça. Não veêm que seriam muito mais felizes com a graça em seus corações. Vocês preferem continuar do jeito que estão. Mas naquele dia, vocês clamarão: “Dai-nos do vosso azeite”! Vocês verão a paz dos piedosos naquele dia. Eles estarão firmes em meio a um universo em destruição. O sangue de Cristo em na consciência deles os dará paz permanente. Vocês verão suas faces alegres, ao ouvirem o clamor, ao ouvirem os passos do noivo chegando. Vocês ouvirão deles o som de louvor ao receberem seu Senhor e Redentor. No presente, os piedosos são pobres e desprezados. Frequentemente em dificuldades, castigados a cada manhã, e vocês não se juntariam à eles. Mas naquele dia, eles serão como pedras numa coroa, como filhos de um rei.

3. Eles pedirão os piedosos.

No presente, os hipócritas desprezam os piedosos e não os pediriam nada. Quando uma pessoa verdadeiramente piedosa lhes advertem ou chama-lhes a atenção, vocês ficam ofendidos. Mas naquele dia vocês, em desespero, ficarão satisfeitos em pedir a qualquer um. Vocês ficarão satisfeitos em pedir seus amigos piedosos e ministros piedosos. Vocês que se perguntam o que faz alguém ir falar com os ministros, vocês que zombam e ridicularizam os verdadeiros piedosos, dirão a eles: “Dai-nos do vosso azeite”. Hoje, ministros e piedosos batem à sua porta, suplicando a vocês para que obtenham o azeite da graça em seus corações; mas naquele dia, vocês baterão à porta deles, clamando: “Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam.”.



III. O desapontamento – os piedosos não poderão dar: “Não seja caso que nos falte a nós e a vós”

1. Não está ao alcance deles dar a graça.

Agrada a Deus usar os piedosos como instrumentos, mas Ele não concedeu a eles que fossem fonte de graça: “Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento.” (1Co.3:6). Raquel disse à Jacó: “Dá-me filhos, se não morro”. E a ira de Jacó se acendeu contra Raquel: “Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre?” (Gn.30:2). Da mesma maneira, a graça não está nas mãos do homem. Aqueles que receberam a Cristo “não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. ” (Jo.1:13-14). Portanto, é em vão que vocês olhem para outros meios para alcançar graça salvadora à sua alma. O machado não pode cortar a mão do lenhador. O jarro que carrega a água não é a fonte. Será em vão o pedir aos filhos de Deus naquele dia terrível. Vá a Jesus agora!

2. Eles não possuem de sobra.

Apenas os justos serão salvos. Todos filhos de Deus possuem a quantidade de graça que os levarão para o céu, e nada mais. Até mesmo agora, os filhos de Deus sabem que não têm nenhuma reserva. Eles não têm muito do Espírito Santo, os ajudando em oração, a lamentarem o pecado e a amarem a Cristo. Em tempos de tentação o crente sente como se não tivesse o Espírito Santo. Ele tem mais necessidade de receber do que habilidade parar compartilhar. Quando Cristo vier naquela hora solene, ele se sentirá como se não tivesse sobras para dividir com outros.

Oh, queridos irmãos, vão e comprem por si mesmos! Vocês que sabem que são ímpios, vão à Jesus, antes que o clamor seja feito, e obtenham graça. Os santos não podem dá-la a vocês, ministros também não. Toda nossa fonte está em Jesus. Nele o Espírito habita sem medidas.

Senhor, incline os corações deles para que corram a Ti!



(Tradução: Rafael Abreu)   

quinta-feira, 6 de junho de 2013


As dez virgens – Parte II
Robert Murray M'Cheyne


"E, tardando o esposo, tosquenejaram todas, e adormeceram." - Mt.25:5


É impossível encontrar uma parábola mais solene e estimulante que esta. Na primeira parte mostrei a vocês: primeiro, que os filhos de Deus são realmente prudentes e os crentres nominais são tolos; somente os que são filhos de Deus veêm as coisas como elas realmente são, vivem para a eternidade e têm a mente de Deus. Segundo, os prudentes e os loucos se parecem em muitas coisas: têm as mesmas ordenanças, mesma linguagem, as mesmas orações, e aparentemente o mesmo comportamento. Terceiro, a diferença entre eles, que deveremos considerar agora; apenas uma classe tem, a outra não: o Espírito Santo.

I. A demora do noivo.

Naquele discurso memorável do Salvador à seus discípulos, na noite da ceia, Jesus disse:

"Um pouco, e não me vereis; e outra vez um pouco, e ver-me-eis; porquanto vou para o Pai." - Jo.16:16

E novamente, João, em Apocalipse, o escuta dizer:

"Eis que venho como ladrão. Bem-aventurado aquele que vigia, e guarda as suas roupas, para que não ande nu, e não se vejam as suas vergonhas." - Ap.16:15

Sua última palavra, a qual pareceu música do céu ao ouvido arrebatado de João, foi: “eis que venho sem demora” e “certamente, venho sem demora”. Ao que parece, muitos dos primeiros cristãos pensaram que Ele viria nos seus dias, de modo que Paulo, em Segundo Tessalonicenses, teve de adivertí-los que a apostasia deveria acontecer primeiro. Também encontramos os escarnecedores, no tempo de Pedro, que costumavam dizer: “Onde está a promessa de Sua volta?”. Desde então, séculos após séculos se passaram e Jesus nunca voltou. Isso explica o trecho “E, tardando o esposo”. Certamente ele deseja vir. Será um dia de alegria para Seu coração, o dia de núpcias. Aqueles que amam a Cristo, amam sua vinda. Eles clamam, como João, “Ora vem, Senhor Jesus” (Ap.22:20). Ainda assim, Ele demora. Por quê?

1. Ele não quer que alguns se percam.

"O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se." - 2Pe.3:9
Essa é a razão da demora: Ele é longânimo. Às vezes, quando vejo alguns atos de homens brutais e perversos, meu coração treme dentro de mim. Então penso em como o Senhor vê tudo isso, toda a maldade cometida em todo o mundo, e ainda assim, Ele a tolera. Ah! Que demonstração de tolerância e compaixão sofredora é essa! Esta é a razão da demora: Ele se compadece dos mais vis, e espera longamente antes de vir.

2. Para prover o número dos seus eleitos.

Cristo está, neste momento, ajuntando um povo dentre os gentios. Ele está construindo o grande templo do Senhor, pedra por pedra. Ele não pode vir até que isso esteja feito. Quando tudo tiver sido feito, então Ele virá. Ele disse a Paulo para continuar e pregar em Corinto: “[...] pois tenho muito povo nesta cidade.” (At.18:10). Pela mesma razão ele faz com que seus ministros continuem e preguem; Ele ainda tem muitas pessoas. Quando vier, aqueles que estiverem prontos entrarão com Ele para o casamento e a porta será fechada. Há, sem dúvidas, muitos eleitos, muitos que foram dados à Ele pelo Pai antes da fundação do mundo, mas estão, ainda, naturalmente mortos. Ele espera para que estes sejam ajuntados. Quando o último dos Seus eleitos for ajuntado, então virá.

3. Para testar a dignidade do seu povo.

Existe uma planta que o jardineiro deve esmagar com os pés para que a faça crescer melhor. Assim é com os filhos de Deus, eles crescem melhor sendo tentados. Há muitas características do povo de Deus que só podem crescer em tempo de aflição:

a) Fé em Suas palavras. O mundo diz: “Onde está a promessa da volta?”. Todas as coisas continuam como eram. Tudo parece contra. Você pode enxergar pelo mundo invisível? Isso é o que se requer: "Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem" (2Co.4:18). Essa é a razão pela qual o noivo tarda: para que a fé cresça.

b) Longanimidade com os adversários. Se Ele viesse agora, e se vingasse de nosso adversário, não teríamos oportunidade de perdoar ofensas nem de ter paciência por causa do Seu nome. Devemos nos conformar à sua morte. Portanto, Ele é longânimo conosco.

c) Compaixão pelas almas. Essa foi a característica mais memorável do caráter de Cristo. Isso o trouxe do trono da glória; isso o fez chorar no Monte das Oliveiras. Nos convém ser feitos como Ele nisso também. Mas, quanto a essas coisas, este é o único tempo em que podemos ser como Ele. Quando Jesus vier, clamaremos: "Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei dos santos" ( Ap.15:3), enquanto ele esmaga Seus inimigos sob Seus pés. Não se maravilhe que Jesus demora.




II. Todas tosquenejaram e adormeceram.

Essas palavras têm sido interpretadas de várias maneiras. Não tenho dúvidas de que a mais simples é a verdadeira, que antes de Cristo vir, todas as igrejas cristãs cairão em profundo sono. A Bíblia mostra que não apenas os hipócritas cairão em sono, mas os verdadeiros crentes também. Por isso vemos os apóstolos dormindo no Monte da Transfiguração e, de novo, no Getsêmani; e Paulo exorta aos romanos: “[...] já é hora de despertarmos do sono” (Rm.13:11).


1) Como os cristãos dormem

a) Os olhos começam a se fechar. Quando, primeiro, trazidos à Cristo, os olhos dos pecadores foram abertos para que vissem:

i) a brevidade do tempo – que não é mais que um palmo.

ii) a vaidade do mundo. Tudo se mostra vão; a excessiva pecaminosidade do pecado. Eles veêm o pecado os cobrindo completamente como demônios, e se maravilham de não estarem no inferno. Eles viram Cristo em sua beleza, plenitude e glória.

Mas agora, todas estas coisas se obscureceram, assim como para o homem sonolento. Todos os objetos exteriores estão, agora, escondidos – a alma não mais vê a brevidade do tempo, o vazio do mundo, a vileza do pecado e a glória de Cristo.

b) Os ouvidos não o ouvem bater à porta. Uma vez o ouvido ouviu Sua voz. Entre outras milhares, a voz de Cristo foi doce e poderosa. Agora, a alma ouve como se Ele não tivesse dito: "Já despi a minha roupa; como as tornarei a vestir? Já lavei os meus pés; como os tornarei a sujar?" (Ct.5:3).

c) O sonho dos que dormem. A alma se ocupa com ídolos. Fantasias vãs. Quando despertada pela primeira vez, a alma diz: “O que tenho mais, eu, com os ídolos?”. Mas agora, quando Cristo e as coisas divinas estão ofuscadas, a alma novamente se apega aos ídolos. Então:

i) deixa de orar. Quão doce é a oração para a alma do crente! Existe um acesso maravilhoso ao trono, derramamento do coração, sem separação, nada é retido. Mas agora há uma esterilidade absoluta, alma não tem mais vontade nem livre acesso.

ii) fica com um espírito temeroso. Uma sensação de culpa repousa sobre a alma, uma sensação estupefata de ter ofendido Deus, um espírito de escravidão.

iii) o crente deixa de temer o pecado. Uma vez, docemente temia o pecado, se mantendo distante das ocasiões em que pecaria, (“[...] como pois faria eu tamanha maldade, e pecaria contra Deus? - Gn.39:9). Agora há uma familiaridade assustadora com o pecado.

2. Como os hipócritas dormem.

a) Eles perdem todas suas convicções. Num tempo tinham profunda e clara convicção do pecado; mas agora eles a perderam. Praticam pecado publicamente afogados em suas convicções. Eles extinguem o Espírito.

b) Perdem a alegria nas coisas divinas. Os que ouvem a palavra, mas são como terreno pedregoso, recebem a palavra com alegria, um flash de deleite. Alguma coisa que o mundo tem atrai sua fantasia – eloquência ou imagens; ou esperando que serão salvos, se agradam e têm grande prazer em ouvir. Mas logo morrem.

c) Desistem da oração. Oram fervorosamente por um longo período. Quando ainda têm convicções, ou iluminados e sob falsa esperança, ou perante aos outros, oram com fluência; mas agora, eles desistem da oração por etapas. “Todas tosquenejaram e adormeceram”. Eles são sonolentos ou não apreciam mais a oração, e, portanto, desistem delas.


Entre os dois grupos existe uma grande diferença: os piedosos ainda têm azeite em suas vasilhas, os outros não. Eu não encorajaria vocês que são piedosos a dormirem; ao contrário, é tempo de acordar do sono. Mas eu não poderia deixar de mostrar quão diferente é o sono dos dois.

a) Os piedosos acordarão de seu sono. É muito pecaminoso e perigoso, mas não fatal. Os hipócritas nunca acordam. A mais rara conversão do mundo, é a do hipócrita endurecido.

b) Enquanto os piedosos [em seu estado de sono] estão sob o descontentamento de Deus, ainda assim não estão debaixo de Sua maldição; mas os hipócritas estão condenados ao inferno.



III. A vinda do noivo.

1. A hora.

À meia noite, numa hora inesperada, Cristo virá. Toda a Bíblia mostra isso:

Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pai.” - Mt.24:36

Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir.” - Mt.25:13

É comparado ao relâmpago:

Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem”. - Mt.24:27

O que há mais terrivelmente súbito que um relâmpago? Primeiro, um silêncio assustador, as nuvens negras encobrindo o céu, então, de repente um clarão de leste à oeste. Assim, deverá ser Sua vinda. Como as dores de parto da grávida: “Pois que, quando disserem: Há paz e segurança, então lhes sobre-virá repentina destruição, como as dores de parto àquela que está grávida, e de modo nenhum escaparão.” (1Ts.5:3). Como um ladrão: “Porque vós mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como o ladrão de noite” (1Ts.5:2). É assim em dois aspectos:

a) Na incerteza da hora. Quando o ladrão vai assaltar a casa, não diz a hora em que irá; não dá sinais de que se aproxima. Se o dono da casa soubesse a hora em que ele viria, se sentaria à espera e não deixaria que sua casa fosse assaltada. Assim será a vinda do noivo “[...] porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir.” (Mt.25:13).

b) O ladrão vem na hora do descanso. Quando toda família foi descansar, quando o dono da casa tranca a porta, quando todas as luzes são apagadas, e todos os olhos fechados em sono, então vem o ladrão, força a porta e entra. Assim será a volta do salvador. Quando Jesus estiver mergulhado em sono, Jesus virá.

Alguns de vocês dirão: “Certamente teremos convidados na hora de Sua volta”. Agora, se há algo muito simples, é que você não sabe o dia nem a hora: “Por isso, estai vós apercebidos também; porque o Filho do homem há de vir à hora em que não penseis.” (Mt.24:44).

Se eu lhes perguntasse:
- “Vocês acham que o Filho do Homem virá essa noite?”
Vocês responderiam:
- “Não achamos.”

Bem, ele virá em tal hora. Vocês estão prontos?



2. Uma palavra aos não convertidos

a) Alguns de vocês vivem em desonestidade. Comprando e vendendo; talvez alguns de vocês usam dois pesos e uma balança falsa, ou, de alguma maneira, engana seu vizinho. Que terrível será se Cristo vier e encontrá-los assim. É dito que os homens estarão comprando e vendendo quando Ele vier.

b) Alguns vivem em obras das trevas. Talvez vocês digam: “Certamente a escuridão me cobrirá.”.

"Porque da janela da minha casa, olhando eu por minhas frestas, vi entre os simples, descobri entre os moços, um moço falto de juízo, que passava pela rua junto à sua esquina, e seguia o caminho da sua casa; no crepúsculo, à tarde do dia, na tenebrosa noite e na escuridão." (Pv.7:6-9)

Alguns de vocês cometem coisas vergonhosas até mesmo para se falar. Que terrível será para vocês quando Sua face santa aparecer!

c) Alguns de vocês sufocam a convicção. Como Agripa, vocês quase estão quase persuadidos a se tornarem cristãos (At.26:28). Como Felix, vocês vacilam e dizem: “em uma outra oportunidade” (At.24:25). Alguns deixarão suas convicções por uma pequena alegria, por um prazer mundano, dizendo: “Ainda há muito tempo antes de eu morrer.” Ah! O que vocês farão quando o clamor vier à meia noite? Não haverá tempo para uma oração, nem para a abrir sua Bíblia; não haverá tempo para conversão.


Mas à meia-noite ouviu-se um clamor” - Mt.25:6



(Tradução: Rafael Abreu)

segunda-feira, 3 de junho de 2013

As dez virgens – Parte I
Robert Murray M'Cheyne


"Então o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo. E cinco delas eram prudentes, e cinco loucas. As loucas, tomando as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo. Mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas, com as suas lâmpadas." - Mt.25:1-4


Não há, em toda Bíblia, uma parábola que se aplique mais precisamente a esta congregação. Como as dez virgens, vocês estão divididos em duas classes. Alguns de vocês são prudentes, eu acredito; outros, ai! São tolos. Como as virgens, todos vocês professam a fé, e ainda, alguns têm o dom do Espírito Santo, e outros o querem. Mas o dia em que vocês serão separados, se aproxima rapidamente. Os verdadeiros salvos entre vocês, entrarão com Cristo, o restante será impedido de entrar pela eternidade. Hoje, posso apresentar-lhes apenas três fatos.

I. Os filhos de Deus são prudentes, os demais são loucos (vs.2).

Aqueles de vocês que são filhos de Deus, são verdadeiramente prudentes. Primeiro, não conforme o mundo. Isso é negado:

"Irmãos, pensem no que vocês eram quando foram chamados. Poucos eram sábios segundo os padrões humanos; poucos eram poderosos; poucos eram de nobre nascimento. Mas Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes." - 1Co.1:26-27.

"Porque a sabedoria deste mundo é loucura aos olhos de Deus." - 1Co.3:19

"Naquela ocasião Jesus disse: 'Eu te louvo, Pai, Senhor dos céus e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos, e as revelaste aos pequeninos.' " - Mt.11:25

"Dos lábios das crianças e dos recém-nascidos firmaste o teu nome como fortaleza, por causa dos teus adversários, para silenciar o inimigo que busca vingança." - Sl.8:2

Não muitos de profundo conhecimento são salvos, não muitos os instruídos, não muitos os inteligentes, homens mundanos - sábios para conduzir uma barganha. Estes são frequentemente esquecidos; e Deus usa suas criancinhas, que não sabem nada do mundo, para trazer glória a Si mesmo. Porque? Para que nenhum homem se vanglorie e diga: "foi a minha inteligência que me salvou".

Segundo, os filhos de Deus são prudentes, os únicos sábios neste mundo.

1. Eles veêm as coisas como realmente são.

Vocês que são meros crentes nominais não veêm as coisas como realmente são.
a) Tempo. Vocês não veêm o tempo como ele realmente é - o limiar da eternidade. Vocês não veêm quão curto ele é - que setenta anos nada mais é que um palmo. Vocês não veêm quão rapidamente ele passa - como um navio no redemoinho, como a águia sobre a presa. Não percebem que ele não retornará, e que cada momento é precioso, que é o tempo para conversão, o único tempo; senão, vocês não o desperdiçariam fingindo piedade. Aquele que é de Cristo vê o tempo da maneira como realmente é.

b) A si próprio. Vocês não se veêm como realmente são. Vocês nunca viram o que é ser, por natureza, filhos da ira. Vocês nunca viram as terríveis montanhas de pecado amontoadas sobre suas almas. Vocês nunca viram as concupiscências que cegam a alma, o vulcão de cobiça abrasadora que está em seu próprio coração. Aquele que é de Cristo vê isso da maneira como realmente é.

c) O favor de Deus. Vocês não veêm o favor de Deus. Vocês nunca viram quão precioso ele é. Vocês reconhecem o favor do homem, e, por isso, vestem capas de cristãos; mas vocês não conhecem o valor da graça de Deus, ou vocês voariam para Cristo. Aquele que é de Cristo vê isso da maneira como realmente é.

2. O filho de Deus não descansa no conhecimento.

O Hipócrita sempre descansa em seu próprio conhecimento. Nunca se pode dizer a ele algo novo. Ele diz: Eu sei disto. Fale com ele sobre pecado, de Cristo, do julgamento porvir; ele acha que será salvo por que tem conhecimento, embora esse conhecimento nunca o tivesse levado a descansar em Cristo, a orar e abandonar seus pecados. Mas vocês que são de Cristo não se contentam com isso. Não apenas conhecem a Cristo e falam d'Ele, mas praticam o que pregam. Abandonaram os ídolos. Vocês são os únicos prudentes.

3. O filho de Deus vive para a eternidade.

O hipócrita vive pelo agora. Isso foi tudo pelo que Judas viveu; se passar por um verdadeiro discípulo apenas por um tempo, manter as aparências apenas por um tempo, satisfazer sua cobiça e ainda assim ser considerado um cristão e apóstolo. Ele tentou manter as aparências até o fim. Assim Demas quis enganar a Paulo - fazendo-o pensar que era um irmão. Ai! Quantos de vocês são loucos! Vivendo assim, para manter a aparência de cristãos mas sabendo que vivem no pecado e sabendo que serão descobertos logo. Somente os que vivem para a eternidade, os que vivem como gostariam de ter vivido quando estiverem a beira da morte, são realmente prudentes.

4. O filho de Deus é parecido com Deus.

Deus é o único sábio. Nele estão todas as fontes de sabedoria divina. Deus é luz, e n'Ele não há treva alguma. Se tornar parecido com Ele é se tornar verdadeiramente sábio. Aqueles de vocês que fugiram para Cristo, estão se tornando parecidos com Deus. Vocês têm Seu Espírito, e estão se conformando à Sua imagem [Rm.8:29]. Vocês têm a mesma vontade que Deus. Vocês se identificam com o propósito de Deus neste mundo. A alegria d'Ele é sua alegria. Os que são crentes nominais não se parecem com Deus. Não o buscam, não o desejam.


II. Os prudentes e os loucos são parecidos em muitas coisas (vs.3,4).

1. Desfrutam das mesmas ordenanças.

a) Vocês ouvem o mesmo pastor - e sentam nos mesmos lugares. Vocês vêm juntos para a casa de Deus, uns com os outros.

b) Cantam os mesmos salmos. Suas vozes se misturam e ninguém além de Deus pode distinguir a voz dos hipócritas das virgens prudentes.

c) Vocês fazem as mesmas orações e, aparentemente, são de igual modo reverentes.
d) Vocês ouvem os mesmos sermões. Algumas vezes, ambos ficarão comovidos. O sentimento de simpatia corre entre vocês e ninguém pode dizer se é como o orvalho da madrugada ou o orvalho do Espírito, simpatia natural ou devido à graça.

e) Vocês se sentam na mesma mesa do Senhor e compartilham o pão de mão em mão, passam o cálice de um para o outro. Ah! Que triste é pensar que muitos nessa congregação nada são além de virgens loucas que, pela eternidade, serão apartados.

2. Usam a mesma linguagem.

Os filhos de Deus falam a língua de Canaã; mas os crentes nominais aprendem a imitá-la e ninguém pode descobrir a diferença. Eles falam sobre a convicção do pecado, avivamento, receber a luz, buscar Cristo, encontrar Cristo, se aproximar de Cristo e encontrar paz. Ainda assim, seus corações estão longe de Deus o tempo todo, e amam mais os prazeres que Deus. Oh! Que triste é pensar que muitos dos que falam de Cristo, regeneração e do Espírito Santo, ainda vão clamar por uma gota de água para se refrescarem no lago de fogo.

3. Proferem as mesmas orações.

Uma das maiores marcas dos filhos de Deus é a oração: “eis que ele está orando”. Ama a oração. Mas até isso os crentes nominais, que estão mortos, imitam. Frequentemente, eles oram em secreto com grande comoção e afeto; frequentemente oram em público com grande fervor; e ainda assim, estão vivendo em pecado, o tempo todo, e sabem disso. Quão triste que muitos de vocês, cujas vozes foram frequentemente ouvidas em oração, serão ouvidas clamando: “Senhor, Senhor! Abra para nós!”, clamando para que montanhas e rochas os escondam da ira de Deus e do cordeiro.

4. Têm, aparentemente, o mesmo comportamento.

A mais verdadeira marca dos filhos de Deus é que eles evitam o pecado. Eles fogem das velhas companhias e dos velhos caminhos, eles andam com Deus. Até isso as virgens loucas imitam. Elas saem para encontrar seu Senhor. Fogem do pecado por um tempo, vão do trabalho para a casa de Deus apressadamente, procuram a companhia dos filhos de Deus, talvez até tentam salvar outros e se tornam muito zelosos nisso. Triste que muitos dos que agora se apegam à piedade logo se desviarão dela e se voltarão para os demônios e homens perversos.



III. Existe uma diferença: As virgens loucas não têm azeite em seus vasos.

Crentes nominais frequentemente contedem com o Espírito. Nos dias de Noé, Ele contendeu com os homens para que estes deixassem seus pecados (Gn.6:3). Assim também com Israel no deserto: “Mas eles foram rebeldes, e contristaram o seu Espírito Santo” (Is.63:10). E também nos dias de Estêvão: “[...] vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais.” (At.7:51). Na Bíblia, no ministério, pelas misericórdias, pelas aflições, Ele luta contra vocês. Ele luta para que vocês abandonem seus pecados e fujam para Cristo. A maioria têm, de uma ou de todas estas maneiras, sentido o esforço do Espírito. Mesmo assim,

1. Não são ensinados pelo Espírito.

Todos os salvos são ensinados pelo Espírito - “todos ensinados por Deus”. Sem isso, nenhum homem vai até Cristo pois sua alma está morta. Ele nos ensina nossa condição de perdidos – e então glorifica a Cristo.

2. O Espírito não habita neles.

O Espírito habita em todos que vão à Cristo (Jo.7:37-39).

a) Como um selo: “e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (Ef.1:13). O coração é a cera, o Espírito Santo o selo, a imagem de Cristo a impressão. Ele amolece o coração. Mas não como os outros selos, não se perde, se mantém lá.

b) Como uma testemunha: “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.” (Rm.8:16). O espírito de adoção, clamando “Aba” no coração, é o Espírito testemunhando.

c) Como um penhor: “O qual também nos selou e deu o penhor do Espírito em nossos corações.” (2Co.1:22). Um pouco da plena recompensa. O Espírito Santo no coração é um pedaço do céu, o começo.

Ah, meus amigos! Não se enganem. Não me digam que ouvem esse ou aquele ministro, têm aquelas convicções, liberdade na oração. Vocês foram transformados? Obtiveram novos corações? É o início do céu? Vocês têm azeite nas vasilhas para suas lâmpadas?


18 de dezembro de 1841.



(Tradução: Rafael Abreu)